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Aumento do custo de produção da soja preocupa agricultores de MT

Ana Dalla Pria Sorriso, MT
Os agricultores estão terminando a colheita de mais uma grande safra em Mato Grosso, estado que mais produz o grão no Brasil. Esse ano, ao contrário do que geralmente acontece nessas horas, o preço da cultura está subindo no mercado. Apesar da alta, os agricultores estão preocupados porque os custos de produção, especialmente do frete, também aumentaram. Com isso, a margem de lucro dos produtores ficou bem apertada.
Quase nove milhões de hectares plantados com soja. A produtividade média das lavouras de Mato Grosso cresce ano após ano. Nessa safra, deve superar as 52 sacas por hectare. Em 2014, Mato Grosso colheu quase 42 milhões de toneladas de soja. Cerca de 6% da safra saiu do município de Sorriso, que hoje ostenta o título de campeão nacional de produção do grão.
A história da soja em Sorriso começou em meados da década de 1970, quando os primeiros agricultores chegaram ao município, atraídos pelo baixo preço das terras. Eles derrubaram o cerrado e plantaram lavouras. Primeiro foi cultivado arroz. Logo depois, veio a soja, que mudou o perfil da região.
Em quatro décadas Sorriso passou de vilarejo a cidade moderna, com mais de 70 mil habitantes. O crescimento não pára graças à riqueza que sai do campo. A cidade fica no Centro-Oeste do Brasil, mas o sotaque que reina é o do Sul do país porque a maioria dos agricultores de Sorriso partiu daquela região.

O produtor Argino Bedin nasceu no Rio Grande do Sul, foi criado no Paraná e faz questão de preservar as tradições de sua terra natal. Ele chegou em Sorriso em 1979 para tocar 700 hectares de terra comprados pelo pai dele. Ele contou que chegar e sair de Sorriso, naquela época, era um desafio. A capital de Mato Grosso, Cuiabá, fica a 400 quilômetros de Sorriso. A estrada era de chão e virava atoleiro na época da chuva. O asfalto só chegou em 1986. Foi um marco para a agricultura da região, que passou a ter uma via melhor pra escoar a produção.
Hoje, junto com o irmão, filhos e sobrinhos, Bedin tem 15,5 mil hectares. Nessa safra, colheu quase um milhão de sacas de soja e já plantou o milho safrinha. Mas para chegar a esse resultado foi preciso muito investimento, especialmente no solo.
“O nosso solo aqui é de origem de arenito. É diferente do solo do Sul e do Sudeste do Brasil e de algumas outras partes do Brasil, que são solos de origem do basalto É um solo que tem um nível de acidez maior. Por outro lado, tem níveis de nutrientes um pouco menores”, explica o agrônomo Ademir Pivato.
Para produzir na cidade é preciso corrigir a acidez do solo e investir em adubação. “Entre o plantio da soja e do milho, é em torno de uma tonelada por hectare por ano. Hoje, custa em torno de R$ 1,25 mil a R$ 1,3 mil por tonelada de fertilizante”, calcula Bedin.
O solo mais pobre encarece o custo de produção. Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (IMEA), para produzir um hectare de soja nessa safra, o agricultor gastou mais de R$ 2,8 mil. Se fizer a comparação com o Paraná, segundo maior produtor de soja do Brasil, o custo foi de R$ 2,4 mil por hectare.
Se falta fertilidade, sobra em topografia e em clima. A região tem chuvas regulares, em boa quantidade e na hora certa, além de uma planura que facilita muito a produção de grãos. O produtor Albino Perin, que cultiva três mil hectares de soja, explica que o plantio direto, feito sem revirar a terra e em cima da palhada da lavoura anterior, melhorou o teor de matéria orgânica do solo. Com o surgimento de variedades melhoradas, máquinas modernas e novos tratamentos para pragas e doenças, o agricultor conseguiu esse salto na produtividade, mas os custos de produção tornam a margem de lucro muito estreita.
“Nós estamos mais distantes dos portos. Então, tudo para nós é mais caro. Os adubos são mais caros, fertilizantes são mais caros e o valor da soja, ele se perde pela logística”, avalia Perin.
A palavra logística é definida no dicionário como ciência que trata do alojamento, transporte e distribuição de material. No caso da agricultura, logística pode ser traduzida como a estrutura necessária para fazer chegar à fazenda o combustível, as máquinas, as sementes, os fertilizantes e os insumos necessários para a produção. Depois, para tirar os grãos do campo e levar até armazéns e compradores de dentro e de fora do país.
A cidade de Sorriso está a mais de dois mil quilômetros das principais vias de exportação de grãos do Brasil: os portos de Santos e Paranaguá. Os insumos também entram pelos mesmos portos porque boa parte da matéria-prima de adubos e agrotóxicos é importada.
Quase tudo chega ao lugar de caminhão. Com o dólar em alta e o aumento no preço do diesel, o custo de produção também aumentou. O combustível é um item importante no campo porque alimenta as máquinas usadas no plantio, na colheita e no controle de pragas e doenças.
Na fazenda de Bedin, por exemplo, o parque de máquinas é impressionante. Haja óleo diesel para movimentar tantas máquinas. “São 23 colheitadeiras e consumo de 410 mil litros de combustível por ano. Chega a dar 3% só no custo do óleo diesel”, diz.
Os agricultores vêm se preparando para diminuir gastos. Os produtores Argino Bedin e Albino Perin construíram armazéns próprios dentro das fazendas para guardar os grãos. Mas o armazém não eliminou os gastos com transporte:
Em geral, é o comprador quem retira os grãos da fazenda e desconta do agricultor o valor do frete. Quanto mais distante o armazém, maior o desconto. Para se ter uma ideia, se a distância for de 100 km, o agricultor vai perder quase R$ 2,00 por saca transportada.
Quem não tem armazém ainda paga de R$ 2,00 a R$ 3,00 por saca para guardar a produção em empresas que comercializam grãos na região. Os agricultores também criaram a cooperativa Coacem para tentar reduzir outros custos.
A cooperativa reúne cerca de 160 produtores da região de Sorriso e foi formada para fazer a compra de insumos e a comercialização de grãos. O presidente da Coacem, Gilberto Peruzzi, explica que, nos últimos anos, o aumento na produtividade das lavouras, que deveria ser motivo de comemoração, acabou agravando os problemas.
“Produziu mais, precisa de mais transporte e vai gerar um aumento no custo tanto da produção, porque precisa vim mais insumo, e, depois, tem mais demanda de caminhões para levar essa produção. Então, é muito complicada a situação”, diz Peruzzi.
O presidente da cooperativa diz que atualmente o frete leva embora uma parte significativa do lucro do produtor. “Olha o absurdo que aconteceu na última safrinha de milho. O produto era tão barato ou o frete é tão caro que pra levar um saco no porto ele precisava vender dois para pagar o frete para levar um no porto. Hoje, praticamente 30% do custo da soja está no frete. Uma saca tem 60 quilos e 30% são 20 quilos. Ele tem que tirar 20 quilos de uma saca para pagar só o frete”, calcula Peruzzi.
Quem negocia grãos também reclama. Uma empresa em Lucas do Rio Verde, município vizinho a Sorriso, comercializa quase dois milhões de toneladas de soja por ano. Desse total, 40% vão para exportação. “Esse número ainda é menor do que o vendido para o mercado interno, justamente pela dificuldade e pela distância”, diz Jaime Binsfeld, diretor da empresa.

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